"o sonho de um é parte da memória de todos." 

Jorge Luis Borges

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DISTINÇÃO MNEMOSYNE

antiquíssima e idêntica

posted 15 Dec 2004

Alvaro de Campos

 

Excerto de uma Ode

   Vem, Noite antiquíssima e idêntica,   
   Noite Rainha nascida destronada,   
   Noite igual por dentro ao silêncio, Noite  
   Com as estrelas lantejoulas rápidas  
   No teu vestido franjado de Infinito.  

   Vem, vagamente,  
   Vem, levemente,  
   Vem sozinha, solene, com as mãos caídas 
   Ao teu lado, vem 
   E traz os montes longínquos para o pé das árvores próximas,  
   Funde num campo teu todos os campos que vejo,  
   Faze da montanha um bloco só do teu corpo,  
   Apaga-lhe todas as diferenças que de longe vejo,  
   Todas as estradas que a sobem,  
   Todas as várias árvores que a fazem verde-escuro ao longe.  
   Todas as casas brancas e com fumo entre as árvores,  
   E deixa só uma luz e outra luz e mais outra,  
   Na distância imprecisa e vagamente perturbadora,   
   Na distância subitamente impossível de percorrer.  

   Nossa Senhora 
   Das coisas impossíveis que procuramos em vão,  
   Dos sonhos que vêm ter convosco ao crepúsculo, à janela,   
   Dos propósitos que nos acariciam 
   Nos grandes terraços dos hotéis cosmopolitas 
   Ao som europeu das músicas e das vozes longe e perto,   
   E que doem por sabermos que nunca os realizaremos...  
   Vem, e embala-nos,  
   Vem e afaga-nos. 
   Beija-nos silenciosamente na fronte,  
   Tão levemente na fronte que não saibamos que nos beijam  
   Senão por uma diferença na alma. 
   E um vago soluço partindo melodiosamente 
   Do antiquíssimo de nós 
   Onde têm raiz todas essas árvores de maravilha 
   Cujos frutos são os sonhos que afagamos e amamos 
   Porque os sabemos fora de relação com o que há na vida. 

   Vem soleníssima,  
   Soleníssima e cheia 
   De uma oculta vontade de soluçar,  
   Talvez porque a alma é grande e a vida pequena,  
   E todos os gestos não saem do nosso corpo 
   E só alcançamos onde o nosso braço chega,  
   E só vemos até onde chega o nosso olhar.  

   Vem, dolorosa,  
   Mater-Dolorosa das Angústias dos Tímidos,  
   Turris-Eburnea das Tristezas dos Desprezados,  
   Mão fresca sobre a testa em febre dos humildes,  
   Sabor de água sobre os lábios secos dos Cansados.  
   Vem, lá do fundo 
   Do horizonte lívido,  
   Vem e arranca-me 
   Do solo de angústia e de inutilidade 
   Onde vicejo.  
   Apanha-me do meu solo, malmequer esquecido,  
   Folha a folha lê em mim não sei que sina 
   E desfolha-me para teu agrado,  
   Para teu agrado silencioso e fresco.  
   Uma folha de mim lança para o Norte,  
   Onde estão as cidades de Hoje que eu tanto amei;  
   Outra folha de mim lança para o Sul,  
   Onde estão os mares que os Navegadores abriram;  
   Outra folha minha atira ao Ocidente,  
   Onde arde ao rubro tudo o que talvez seja o Futuro,  
   Que eu sem conhecer adoro;  
   E a outra, as outras, o resto de mim 
   Atira ao Oriente,  
   Ao Oriente donde vem tudo, o dia e a fé,  
   Ao Oriente pomposo e fanático e quente,  
   Ao Oriente excessivo que eu nunca verei,  
   Ao Oriente budista, bramânico, sintoísta,  
   Ao Oriente que tudo o que nós não temos,  
   Que tudo o que nós não somos,  
   Ao Oriente onde — quem sabe? — Cristo talvez ainda hoje viva,  
   Onde Deus talvez exista realmente e mandando tudo... 

   Vem sobre os mares,  
   Sobre os mares maiores,  
   Sobre os mares sem horizontes precisos,  
   Vem e passa a mão pelo dorso da fera,  
   E acalma-o misteriosamente,  
   ó domadora hipnótica das coisas que se agitam muito!  

   Vem, cuidadosa,  
   Vem, maternal,  
   Pé ante pé enfermeira antiquíssima, que te sentaste  ·

   À cabeceira dos deuses das fés     já perdidas,  
   E que viste nascer Jeová e Júpiter,  
   E sorriste porque tudo te é falso é inútil.  

   Vem, Noite silenciosa e extática,  
   Vem envolver na noite manto branco 
   O meu coração... 
   Serenamente como uma brisa na tarde leve,  
   Tranquilamente com um gesto materno afagando. 
   Com as estrelas luzindo nas tuas mãos 
   E a lua máscara misteriosa sobre a tua face. 
   Todos os sons soam de outra maneira 
   Quando tu vens. 
   Quando tu entras baixam todas as vozes,  
   Ninguém te vê entrar. 
   Ninguém sabe quando entraste,  
   Senão de repente, vendo que tudo se recolhe,  
   Que tudo perde as arestas e as cores,  
   E que no alto céu ainda claramente azul 
   Já crescente nítido, ou círculo branco, ou mera luz nova que vem. 

   A lua começa a ser real.  

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   Fernando Pessoa (1888-1935). Poeta português