“Entre as lembranças que cada um de nós possui, há algumas que não contamos senão aos nossos amigos. Há outras ainda que não confessaremos nem mesmo aos nossos amigos, que não repetiremos senão a nós mesmos, e aliás, sob o signo do segredo. Mas existem enfim coisas que o homem não consente nem em confessar a si mesmo. No curso de sua existência, todo homem honesto acumulou dessas lembranças suficientemente. Direi mesmo que seu número é tanto mais importante, quanto o homem é mais honesto. Eu, em todo caso, não faz muito tempo que me decidi a lembrar de certas antigas aventuras minhas; até aqui, evitei‑as, e não sem um tanto de inquietação. Ora, agora, quando as evoco e quero mesmo anotá‑las, agora tenho a prova: é possível ser franco e sincero, ao menos cara a cara consigo mesmo, e poder‑se‑á dizer toda a verdade? Observarei a este propósito que Heine assegura que não podem existir autobiografias exactas, e que o homem mente sempre, quando fala de si mesmo... Rousseau, com seu ponto de vista, certamente nos enganou nas suas Confissões e mesmo deliberadamente, por vaidade. Estou certo de que Heine tem razão: compreendo muito bem que nos possamos sobrecarregar de crimes abomináveis, apenas por vaidade, e compreendo também o que pode ser esse sentimento. Mas Heine tinha em vista as confissões públicas; ora, eu não escrevo senão para mim sozinho e declaro de uma vez por todas que, se pareço dirigir‑me ao leitor, é simplesmente um processo de que me sirvo para maior facilidade. Não é senão uma forma, uma forma vazia; e quanto aos leitores, não os terei jamais, já o declarei.”
Fiódor Mikháilovitch Dostoevsky (1821-1881)
In.: “O subsolo”
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